segunda-feira, 14 de novembro de 2011

"Flor de Aguapé"




Conheci-a no silêncio de um momento em que as folhas do Outono alimentavam o húmus da terra.
Era uma princesa sem coroa, despida, nua! A sua nudez não chocava, era ela, sem mácula, sem nódoa…
Levantei o meu rosto e olhei-a sentada, atenta... olhava o horizonte como uma flor de aguapé sagrada esquecida no tempo. Era linda e perfumada, possuía a nobreza delicada das flores. Ao seu redor estendia-se um lago de serenidade...
Segredei-lhe palavras singelas, baixinho, como um sussurro, pois não queria desperta-la, apenas sentar-me ao seu lado e adormecer no encantamento.
Foi então que ela abriu-se para mim suave, como o amanhecer de uma gotícula de água deixada pelo orvalho da noite,


Uma luz tépida penetrou nos aromas que exalava, as folhas que caiam como suspiros, subiram para os ramos abertos das árvores.
Castanhas e secas que eram, à cor verde retornaram, como almas fechadas pelo fumo de velas assopradas que se abrem no calor. A paisagem ganhou a cor dos frutos maduros que as crianças apanham nos galhos mais altos.
Olhei para o meu corpo aquecido pela sua nudez, senti um dedo mexer-se na direcção da minha mão…
As aves já não subiam em gritos de sufoco que contrariavam o tempo.
Agora sentia os braços dela entregues às minhas carícias, os lábios colavam-se em beijos cruzados nas bocas carnudas, como hormonas molhadas que rebentam entre o quente e o frio das línguas no esboço do desejo.
Desde esse dia o tempo parou, nunca mais as folhas caíram, agora os corpos fundem-se na harmonia dos dedos e da paisagem colorida.
Sinto algo mexer-se no seu ventre, escuto vozes de crianças, agora os pássaros não caiem do céu, transportam sonhos nas asas esplanadas pelo deleite de uma brisa de abundancia...


Miguel Martins de Menezes





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