quarta-feira, 7 de agosto de 2013

“O Ladrão de comida” / Narrativa




“O Ladrão de comida”
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Miguel Martins de Menezes

Florival Flamínio estava exausto, uma dor insuportável afagava-lhe o corpo sem saber de onde vinha. Perdera a noção do tempo dos Homens acossado pela realidade tenebrosa que vivia, estava sem teto, não possuía uma casa, há muitos dias que caminhava com um pequeno saco de mão onde guardara um fato, uma camisa arrumada com carinho, duas camisetas, uma gravata, uma pequena toalha e umas calças meticulosamente dobradas. Numa bolsa interior jaziam pequenos objetos de higiene pessoal, entre os quais, uma antiga caixa que continha uma navalha de barbear. Vestia um longo casaco azul impermeável almofadado com penas, estava brilhante, polido pelo gasto, acobertava-o do frio aquecendo-o nas noites geladas de Inverno.

Passara o dia sentado numa paragem de transportes públicos, o seu estado de exaustão chegara ao limite, para que pudesse caminhar dez metros levava cinco minutos extenuantes de dor. Já não julgava o tempo como uma determinação política, não biológica, agora o corpo ordenava-lhe esse comando no descompasso da própria vida.

Sentava-se sempre naquela paragem perto de lugares que de modo inconsciente deixavam-lhe na memória a marca indelével de tempos passados, momentos de felicidade cuja adolescência o havia marcado. A poucos metros, um velho castanheiro erguia-se com uma copa frondosa, possuía mais de duzentos anos, sempre ali estivera! Sentiu uma persiana abrir na casa do lado da paragem, uma senhora idosa olhava-o, ficou ali durante longos minutos…O olhar da idosa mulher perturbou-o, saiu da janela, mas momentos mais tarde regressou continuando a olhar Florival Flamínio. Sentiu-se incomodado; por um lado a dor nos pés impedia-o de caminhar, por outro esta “invasão de privacidade" impedia-o de ali repousar. 

Levantou-se do ponto de paragem de transportes públicos e reiniciou a caminhada, o grau de exaustão que o atingira impedia-o de continuar, as unhas dos pés haviam caído, perdera o sentido do olfato e do paladar, precisava comer, sobreviver…

Ao longe via um restaurante com uma bela esplanada, contudo não possuía dinheiro, a vergonha impedia-o de pedir comida, inquiriu-se a si próprio: seria crime sentar-se e pedir uma refeição reconfortante acompanhada por um bom vinho? Afinal que prejuízo daria? Questionou-se de novo, no estado em que se encontrava nem uma refeição lhe serviriam, uma barba de doze dias pedia água e sabão, as pessoas afastavam-se apenas com o cheiro que exalava do corpo ensebado pela exsudação de doze penosos dias afugentava os transeuntes.

Recordava o momento em que descobriu um bilhete de autocarro no chão e decidira dar uma volta completa à cidade apenas para poder sentir o conforto de uma cadeira almofada e reclinar-se num sono profundo, ainda que breve! Sentou-se na extremidade, junto à janela, mas apesar do autocarro lotado ninguém se arriscara a sentar do lado da sua cadeira, nesse momento percebeu a exclusão, a cadeira do lado permanecera vaga todo o tempo que durou a viagem.

Caiu num sono tão profundo que o motorista o chamou dizendo de forma educada:

- O senhor precisa sair ou comprar outro bilhete!

Florival Flamínio assentiu com a cabeça e saiu pela porta traseira do transporte no exato ponto onde entrara. Acabara-se o breve momento de conforto, dormira durante cerca de quarenta e cinco minutos. Foi o primeiro sono após doze dias, há doze penosos dias que caminhava sem dormir e sem comer, sem um banho ou o conforto da segurança das quatro paredes de uma casa.

Recordou o momento em que se abrigou debaixo da extremidade de um telhado à beira rio, do lado uma discoteca libertava sons com batidas fortes tocando o coração como trovões que atordoavam a alma perdida. Apertou o longo casaco contra o peito pois o fecho havia partido e o frio penetrava na fresta da abertura frontal. A alguns metros do lugar, uma caravana de venda de “hambúrguers” libertava fumo e vapor da cozinha. Um homem atarefado preparava alimentos para os estômagos vazios dos jovens que pulavam sob o som frenético da embriaguez aquele espaço de dança.

O corpo pedia-lhe comida, incapaz de dar mais um passo devido ao desgaste provocado pela completa inexistência de energia. Naquele momento as discotecas abriram portas, jovens embriagados ululavam com garrafas nas mãos ziguezagueando sem direção. Alguns foram-se aproximando da caravana de comida pedindo salsichas com pão e mostarda, outros “hambúrguers” e batatas fritas entre outros alimentos como salgadinhos e acepipes diversos.

Florival estava esfomeado, não sentia dores no estômago, já passara essa etapa que apenas provoca dores nos primeiros quatro dias de abstinência. Agora sentia falta de energia, precisava comer para poder caminhar. Alguns jovens mordiam o pão e jogavam a metade no chão, outros atiravam com pequenas caixas de isopor amarelo ainda repletas de batatas fritas encharcadas em maionese e molho de tomate. Algumas gaivotas debicavam o repasto jogado no chão, Florival sentia vergonha, de modo lento foi-se aproximando resguardando-se da luz de um candeeiro de rua onde centenas de insetos dançavam em voos sem direção. De súbito, um dos jovens pediu um "hambúrguer", comeu meia dúzia de batatas, e jogou a embalagem inteira no chão. Estava ali a sua refeição!... 

Florival Flamínio aproximou-se discretamente olhando os jovens que bebericavam restos de garrafas de cerveja de modo indiferente,tanta havia sido a abundância das bebidas nas barrigas flatulentas. Deu mais um passo olhando os circundantes, e no exato momento que todos se alhearam da sua presença baixou-se para pegar o hambúrguer quando uma gigante gaivota fez um voo rasante abrindo o bico amarelo levando o repasto. Florival sorriu da ironia, encheu os pulmões com o ar fresco da madrugada, e continuou caminhando sorrindo- Pensava na sua refeição, havia sido furtada debaixo do seu nariz. Afinal a ave também necessitava de sobreviver, não ficou desgostoso, antes continuou sorrindo com aquele momento hilariante afastando-se penosamente daquele lugar tragado pela escuridão da noite.

As primeiras luzes do dia surgiram, estava esgotado, precisava procurar um momento e um espaço onde pudesse esvair o seu desespero e cansaço, pensou num jardim florido, caminhando para o único jardim da cidade onde a pacatez do silêncio e os aromas perfumados pudessem deglutir a sua agonia. Lembrou-se do jardim botânico da cidade, da mata de bambu deste espaço que lhe oferecia descanso e anonimato.

Estava longe, precisava caminhar mais quatro quilômetros, mas esforçou-se para alcançar o merecido descanso. Ali dormiu tranquilo, deixando que o corpo se aconchegasse àquele verde e centenário espaço até que finalmente despertou. Precisava de energia, os seus passos trémulos gritavam-lhe em surdina que se não comesse algo a próxima noite se transformaria num pesadelo. O frio da noite obrigava-o a caminhar, e um corpo inerte sofreria a torpeza do gelo, de novo esforçou-se para chegar até o bairro onde habitara, pensou que poderia conseguir alguns alimentos, mas o aspeto nauseabundo do corpo impedia-o de aproximar-se das pessoas. Olhou o horizonte e meditou…

Estava na frente de um restaurante, precisava de arranjar um meio de conseguir uma refeição gratuita, pedir a refeição seria incomodo, podia ser escutado pelos clientes do seu lado no balcão, poderia mesmo ser colocado fora devido ao sujo aspeto exterior. A noite depressa cairia, perto havia uma igreja com um parque de entretenimento para crianças, estava vazio, do lado havia uma bica de água, decidiu enfrentar o momento com calma.

Despiu a camiseta e lavou-se debaixo das axilas, passou água no rosto; era agradável sentir a frescura da água apesar do frio do inverno e das temperaturas negativas. Pegou num pedaço de sabonete e esfregou o rosto escanhoando uma barba com doze dias, agora sentia a pele com as mãos, passou o sabão nos cabelos grisalhos lavando-os com o que restava do sabonete, guardou a camiseta suja num saco de plástico e secou-se com a tolha, terminou passando de modo táctil uma velha escova de plástico nos cabelos vestindo no final a camisa lavada.

Olhou em frente, dois enormes camiões estavam estacionados na rua do lado, vestiu-se entre estes, retirou a camiseta suja do saco de plástico e poliu os sapatos ainda em bom estado, colocou a gravata e vestiu o casaco sorrindo, naquele momento pensou: já não sou olhado como um ser humano sem abrigo, sorriu com a própria miséria e abandonou o local escondendo o saco no jardim debaixo da ramagem de uma cerca frondosa.

Aproximava-se do restaurante, havia mergulhado os pés em água gelada, por momentos sentiu alívio, precisava caminhar sem esforço para que não percebessem que se encontrava em dificuldades. Sentou-se numa mesa do lado da porta da entrada do restaurante, a esplanada estava cheia, colocou os óculos escuros e aguardou o atendimento.

O jovem empregado aproximou-se, pediu o menu e a carta de vinhos. O “garçom” regressou e entregou a lista da adega da casa, em segundos fechou-a dizendo:

- Queria um vinho branco seco, escolha o senhor segundo o seu critério – Pediu Florival.

- Sugiro-lhe um JK senhor!- respondeu o “garçom”.

- Boa escolha, respondeu olhando o menu, para comer escolhi um arroz de pato em forno de lenha.

Florival havia acariciado o ego do simpático jovem dando-lhe a primazia da escolha do vinho. O empregado retirou os menus da mesa e regressou com uma garrafa gelada num pequeno balde metálico cheio de gelo, colocou na frente dois pires de entradas com queijos e morcela assada no forno fatiada, do lado um pequeno pão cortado aguardava o olhar ansioso de Florival Flamínio… Pegou na garrafa de vinho e encheu o copo até à metade, o empregado surgiu de novo com um prato de barro fumegante, pousou-o na frente desejando-lhe bom apetite.

Florival via mais comida do que aquela que podia ingerir, a esplanada continuava cheia de clientes, sabia que quando esta se esvaziasse até à metade, chegaria a hora de partir. Uns entravam e outros saiam, havia chegado no ponto alto do movimento da casa, possuía tempo, podia comer tranquilo.

Depressa percebeu que não conseguiria ingerir os alimentos todos, não sentia o gosto da comida nem o cheiro. Doze dias sem dormir e sem comer fumando beatas colhidas nos pontos de espera de transportes públicos, haviam provocado uma aguda sinusite que lhe corroía o cérebro correndo o risco de degenerar numa grave infeção e prematura morte.

Não tocou nas entradas, tendo começado pelo pão fresco do lado que barrou com manteiga extraída de uma pequena embalagem, arriscou-se por uma rodela de morcela e só depois ingeriu um longo gole do saboroso vinho estalando a língua de prazer. Ah...Tinha de “forrar” o estômago para suportar o pequeno trago da bebida. Agora não era um vagabundo, a gravata “bordeaux “ sobre o fundo da camisa de um branco imaculado, ajustava na perfeição com o fato azul que trazia, mais parecia um Senhor, não fosse a dor nos pés que o puxava para a sua real condição de um miserável sem destino.

Olhou o prato de arroz de pato crispado no calor do forno de lenha, duas rodelas de chouriço enfeitavam o topo como duas cerejas no cimo de um bolo, sentia o calor da terrina de barro fumegante, provou uma garfada e deu um novo gole no copo de vinho satisfeito, cometia um crime, estava cheio de medo, podia ser preso, mas de que lhe servia a liberdade com um estômago vazio?

Florival Flamínio continuou o repasto como uma sinfonia de felicidade, sabia que era falso o sentimento, temporário apenas, mas o corpo agradeceu reconfortado. Quando chegou a meio do prato de arroz parou… Quedou-se pelo vinho bebendo um segundo copo, a garrafa atingira o meio nível, olhou em redor, agora apenas quatro mesas permaneciam ocupadas. Olhou para o interior através da vitrina de vidro e viu o empregado caminhar na direção da esplanada, manteve a calma, sabia que tinha de aparentar serenidade. A noite havia caído encerrando o dia, o empregado parou do lado e perguntou:

- Não gostou? - Perguntou o jovem ao ver dois talheres alinhados na metade do prato ainda cheio.

- Gostei, está delicioso, como pouco, a dose que me serviu foi generosa, queria guardar um pouco de estômago para uns camarões gigantes que estou vendo aqui na vitrina – Respondeu com serenidade Florival.

- Com certeza Senhor – Respondeu o "garçom" com reverente elegância, quantos pretende?

- Um apenas, são enormes, o estômago quer mais do que consegue suportar – Acrescentou com um sorriso.

O empregado deslocou-se para o interior, outro empregado dirigiu-se para a terrina de camarões na vitrina e virou costas pegando nesta e caminhando para a outra extremidade onde o empregado aguardava o pedido. Florival Flamínio decidiu que era o momento de partir, deitou um último olhar na garrafa de vinho meio cheia e deu o último gole no copo abandonando o local com calma.

O restaurante havia sido escolhido por estar próximo de uma pequena rua lateral cortada por diversas perpendiculares, quando a atingiu, correu de forma entrecortada por passos largos, suava, os pés doíam a cada tentativa de corrida, abrandou, não podia correr mais. Mergulhou na noite desviando o percurso para a esquerda na primeira perpendicular, logo de seguida acelerou o passo, mentalmente sabia que o empregado chegara à mesa naquele exato momento com o prato de camarão, fez um zig-zag e cortou para outra perpendicular, afastava-se lesto…

Sabia que cada segundo que decorria, estava contra a falsa liberdade que cultivara ao longo da vida, precisava sair da proximidade, as hipóteses agora estavam do seu lado, já não estava visível, mentalmente cogitou que o empregado havia perdido algum tempo emoldurando o prato, quando chegasse à mesa onde cometera o crime, imaginaria que Florival se teria deslocado à casa de banho no interior do restaurante, pousaria o camarão na mesa e prosseguiria no trabalho. Saíra no tempo certo, pensou!

Agora estava longe, aproximava-se da igreja, retirou os óculos, colocou no bolso do casaco, procurou o saco na cerca de ramos verdes e abriu-o despindo a camisa e pegando na camiseta suja. A noite ajudava-o, atrás de uma árvore despiu as calças e vestiu as calças sujas. Dobrou cuidadosamente a camisa e o casaco colocando-os no fundo do saco voltando a guardar com parcimónia os poucos pertences que lhe haviam restado.

Pensou caminhar, mas os pés estavam uma lástima, a fuga do restaurante exigira mais do que poderia suportar. Deitou-se em cima de um banco do jardim e olhou as estrelas. O sino da Igreja anunciava a meia hora com um toque do badalo, sabia que o tempo estava contra, havia perdido muito peso rápido, quanto mais tempo aguentaria? Sabia que não podia dormir, era um fator de segurança, se adormecesse poderia correr riscos, ser vítima de agressão. O furto não o preocupava, nada possuía, precisava estar acordado, os únicos momentos em que adormecera haviam sido medidos de forma calculada ao longo do dia, não podia dormir de noite.

Olhou o céu de novo, pensou no padre daquela igreja, conhecia-o, sabia que habitava a mansão do lado dos terrenos onde se encontrava, estava de luzes apagadas e persianas corridas, na cave uma monumental garrafeira encontrava-se iluminada, quando olhava por cima da verde sebe do lado do gradeamento podia ver centenas de garrafas de vinho das melhores marcas revestindo as paredes da base ao teto, meditou, naquele momento pensou: Se o ser humano olhasse o universo sem algoritmos ou proporções matemáticas pouco fiáveis, se percebessem que a abstração não nasce do zero mas sim de uma outra ordem ainda não atingida, talvez entendessem que na desordem dessa numerologia zerada, existe uma lógica condicionada pela visão do nosso ego, sem números ou magia sedutora de ambiguidades cujo destino se destrói a si próprio, talvez percebêssemos o quanto temos errado… Ah arquitetura da vida, sem ciência não progride e com ciência se destrói, ah... Pobre religião que nunca entendeste Deus, no fim de tudo isto apenas lhe restava amar, contar as estrelas e sonhar.

Naquele momento Florival Flamínio adormeceu profundamente e mergulhou num sono sem vontade de regresso. Acordou de madrugada com o rosto inchado, o frio despertara o corpo, necessitava beber água, refrescar-se, dirigiu-se para a bica de água e lavou o rosto, precisava caminhar para vencer o frio, quando a manhã chegasse traria o conforto dos primeiros raios de Sol. Escondeu de novo o saco na sebe que cercava o lugar, era um local bem escolhido, o saco verde possuía a cor da ramagem, bem camuflado num lugar recôndito e inacessível.

Entrara no décimo terceiro dia apenas com uma refeição, havia procurado ajuda em instituições para sem abrigo, gasto o pouco crédito que lhe restava no telefone móvel, estavam todas lotadas, pediam-lhe que aguardasse três dias, mas os dias passavam e continuavam lotadas. O desespero era afastado por uma invisível força, algo que movia amor no silêncio. Pensava que por trás de toda aquela miséria havia uma luz sedutora que o guiava.

Florival Flamínio vivera três anos num quarto alugado, a proprietária da casa morrera de súbito, e os filhos querendo apossar-se do imóvel afastaram Florival da última morada. Ainda recorrera à polícia, mas esta apenas lhe respondeu: arrombe a porta e entre, a lei reconhece-lhe esse direito! Como o poderia fazer? Iria arrombar uma porta e enfrentar três irmãos enlouquecidos pela sanha ávida do dinheiro? A saída foi a porta da rua, as estrelas que agora contava como se tivessem caído do céu, haveria de encontrar uma solução, chegaria o seu momento de libertação daquela prisão de miséria.

O décimo terceiro dia foi penoso, Florival Flamínio era empurrado para uma excruciante dor a cada passo. Pensava que o ser humano possuía uma incomensurável habilidade de enganar a própria identidade e a dos outros seres vivos. Aquilo que o destruíra, talvez fosse o último reduto, a única defesa que restava. Com a mente toldada por pensamentos que vinham das profundezas do cérebro, viajava até ao próximo passo, era a escória da humanidade, percorria uma via-sacra sem cruz, sem madalenas para chorarem a dor e o sangue que lhe saiam do corpo, quando chegaria a sua sexta estação? Quando surgiria a sua verônica para lhe limpar o rosto de dor? Ah... Pensava com um triste sorriso, a sua crucificação estava próxima!

Acreditava piamente em Deus, mas desde há muitos anos que excluíra a sua percepção das igrejas, parecia haver um cada vez maior elo entre a espiritualidade e a ciência, Florival meditava… Não a espiritualidade das igrejas, mas sim a compreensão dos elos entre Deus e a energia, a causa última! Deu mais dois passos, o Sol surgia no horizonte, e com este um pequeno sorriso aflorou os lábios. Dentro de três horas receberia energia no corpo, afinal a ciência já havia percebido que os elementos que compõem a matéria perdem identidade, isso significava que tudo possuía uma explicação unívoca, uma origem comum, assim pensava antes de prosseguir e dar mais um passo.

Deus nada tem a ver com religião, pensou de novo, esforçando-se para arrastar os pés no chão, já não os levantava, antes arrastava lenta e de forma penosa a extremidade dos membros doridos, como se não se movesse, agora era afligido pelos olhares curiosos dos outros passantes mas desviou a atenção para o pensamento; Afinal a religião apenas refletia o estado de felicidade aparente dos Homens, pensava enquanto se esforçava por dar o próximo passo, uma defesa primária para a incapacidade de responder questões que são inacessíveis aos seres mais inteligentes, dogmas como lhes chamavam!

Será que somos mesmo inteligentes? Questionava Florival, se olhássemos a inteligência de forma comparativa observaríamos que o todo planetário se reduz a um grão de areia no espaço global universal. Se um ser mais inteligente que o Homem o observasse de longe, veria que andamos muito ocupados à superfície das nossas próprias construções mentais e desígnios, se a “lupa” aumentasse, perceberíamos como maltratamos os outros seres vivos e aniquilamos a própria existência, como observar uma comunidade de formigas com uma lente aproximadora, ambos igualmente atarefados, afinal onde está essa suprema inteligência? Sorriu imaginado que estava sendo observado por uma suprema inteligência, mentalmente sorria dando mais um passo.

A dor era intensa, os pés desfaziam-se, a pele da planta dos pés havia começado a esfarelar-se num pó húmido, os pés apodreciam com fungos que rebentavam em todos os dedos provocando a queda das unhas sem dor. Afinal Deus era o reencontro com a própria origem humana, havia percebido a sua proximidade, estava próximo de Deus, a hora agora era biológica, não instrumental, nenhuma máquina a podia medir, nenhum “tic-tac” poderia agora determinar sonoramente a vida, voltou a sorrir, Florival Flamínio era o próprio corpo e a existência, quem marcava o compasso, não a ditadura do tempo dos Homens.

Existiam momentos na vida em que o silêncio era tão pesado que a vontade do grito fala mais alto. Florival atingira o limite, nem a voz se soltava do corpo para expressar a dor, pensava que iria aguentar, dar mais um passo, e só depois pensar no seguinte. Enlouquecia a cada passo que dava, era conhecedor das suas limitações, falava com os poros da própria pele. Todos adoram a perfeição, mas quando a encontram fogem dela, é tão perfeita que se torna uma prisão. Começou a sorrir, imaginou-se olhando os próprios pés, sorriu de novo, afinal toda a estética humana seria boa desde que não fosse ofensiva, afinal nada encontraria de belo se os olhos naquele momento pudessem atingir a planta dos pés, riu com este pensamento soltando uma pequena gargalhada sonora.

Os pensamentos eram com uma almofada para cada passo que dava, um acalento do tempo biológico que lhe restava, onde estava essa força invisível? Havia dias e dias que não a via, temeu perde-la. Não podia desanimar, deixar-se dominar pelo pânico, tentava controlar os pensamentos que o subjugavam em catadupas. Acalmou-se, revia mentalmente o momento do seu primeiro beijo como um encontro na antestreia de um filme que passava de modo contínuo no cérebro.

A recordação da namorada dava-lhe ainda mais força e coragem para enfrentar qualquer obstáculo. Tudo faria por aquele ser humano maravilhoso, iria até ao limite das forças, seria firme, lutaria até nada mais lhe restar senão uma ténue vontade interior que o impulsionasse renovando a energia, precisava dar o próximo passo, nada o faria desistir, encontrava energia onde ela não existia, transformara cada músculo e cada momento de desânimo na vontade mais firme, moldaria o corpo e a determinação em aço puro se necessário, mas nada o faria quebrar aquele ânimo próprio que o movia; o objetivo com um nome, um simples nome: Iraci...

Ganhou um novo vigor com estes pensamentos, fechou os olhos viajando até o silencioso e inconsciente anfitrião que no cérebro entregara a sua primeira visão daquela mulher. Havia dias que não a via, nada sabia dela, ausentara-se da sua vida, a vergonha impedia-o de regressar. Provavelmente Iraci o teria abandonado ou estaria junto do seu coração… Não podia comunicar com a mulher que amava, separado pela distância e pela pobreza, ignorou o destino por breves momentos, fazia uma longa viagem na mais completa ignorância do local em que se encontrava, ali esperou, parou, não conseguia dar mais nenhum passo, nesse momento o cérebro fechou-se como um enorme apagão e perdeu a consciência.

Acordou numa cama no corredor de um hospital. Uma senhora perguntava-lhe se sabia o nome, o ano, mês e dia em que se encontrava, a última questão não conseguira responder, calculava que entrara no décimo quarto dia. Do seu lado uma garrafa de soro alimentava-o, contudo sentia fome, muita fome, respondeu à enfermeira, implorou um prato de sopa quente, precisava de algo bem quente, sentia frio, não queria estar naquele lugar frio… A enfermeira trouxe-lhe a sopa numa pequena embalagem de plástico, vinha morna, quase fria, largou a colher e sorveu a sopa direto pelo recipiente, de imediato pediu para retirarem o soro e sair do hospital, precisava fumar um cigarro, precisava caminhar.

A médica obrigou Florival a assinar um documento responsabilizando-se pela sua saída do hospital, afinal era livre que nem um passarinho, poderia enfrentar a morte, esta encontrava-se lá fora esperando-o. Mal passou a porta do hospital uma forte chuva começou a cair iluminando a noite com relâmpagos e ensurdecendo a realidade com trovões, estes ribombavam num clamor da natureza, fumou um demorado cigarro que havia previamente enrolado, quando chegou ao fim, mergulhou na noite acariciado pela chuva forte que caia, sentiu-se livre, sentiu que a sua alma era lavada por cada gota que lhe percorria o rosto. Agora conseguia caminhar, a energia voltara, os cabelos acolhiam a água fresca e o primeiro pensamento foi para os seus parcos haveres, onde estaria o saco de roupa? Estaria no mesmo lugar onde o tinha deixado?

Começou uma longa caminhada de nove quilômetros, não tinha pressa, era o dono do tempo, enquanto caminhava a mente vagueava como o vagabundo em que se tornara, a sensação de liberdade que em simultâneo sentia fazia-o deliciar-se sem autocomiseração, afinal era um escritor, precisava recolher daquela experiência um estado de consciência que o levasse a um destino superior. Passou do lado de uma discoteca, sorriu, a memória da juventude acolhia-o no som da música que se fazia escutar no exterior.

Não se podia sentir derrotado, quantos naquele hospital que o recuperara dos estragos causados pela falta de higiene no sono, esgotamento físico, não ficariam sem pés para caminhar, quantos lutavam entre a vida e a morte esperando um regresso com a mesma esperança que o fazia prosseguir? Imaginou-se na célebre Academia de Atenas, a primeira instituição de educação superior do mundo ocidental, no ano quatrocentos e vinte e sete antes de Cristo nascer, o desespero humano perturbara a mente dos intelectuais, levou-os, na infrutífera frustração de salvar o que restava da identidade humana, a confundir de modo perigoso humanismo com amor.

A cada passo que dava os pensamentos ocorriam-lhe de forma natural, eram o único companheiro dessa viagem cujo percurso iniciara, um relógio digital amarelo mostrava a hora e a temperatura debaixo de um viaduto, passava um minuto da meia-noite, atingira o décimo quinto dia daquele percurso, cinco graus, precisava caminhar mais rápido. O frio era outro inimigo de Florival Flamínio, apressou o passo pensando que as tecnologias haviam prolongado uma parte do corpo humano como extensão dos sentidos; a roda como extensão das pernas, as ferramentas como extensão dos dedos e das mãos. Ah... Quem lhe dera possuir um carro!

As novas tecnologias eletrônicas transplantaram essa conexão para o sistema nervoso central alterando progressivamente o cérebro humano, estava perante o maior dano da tecnologia, a perigosa ignorância da realidade determinada pelo abuso determinado pelo consumismo da sociedade em que vivia, o controle da humanidade sem que esta o possa sentir, ele, Florival, era um miserável, mas na sua miséria percebia a sua condição de escravo.

Iniciou uma longa descida, até que no final encontrou o parque da igreja onde guardava o saco, tirou um cartão de papelão da cerca, e sentou-se no banco do jardim. Ninguém o conseguia ver da estrada ou das ruas circundantes, ninguém o conseguia ver a mais de cinco metros, era um ponto difuso visto de qualquer ângulo, estava encoberto pela folhagem de uma enorme árvore cuja ramagem quase atingia o solo. Era a casa onde agora residia, o seu teco eram as estrelas que brilhavam num céu cuja luz o iluminava no segredo da noite mais longa da vida.

Entrara no décimo quinto dia, estava com medo do amanhecer, ficou sentado acordado, divagando pelas memórias conturbadas do passado. De vez em quando o frio obrigava-o a levantar-se batendo com os pés com firmeza no solo aquecendo as pernas com pequenos movimentos para novamente se voltar a sentar. Por um lado aquecia-o, mas o preço era a dor insuportável dos pés. Repetia este exercício de forma incessante, estranhava a resistência humana, atingira o limite, mais quantos dias aguentaria? Não tinha resposta, esta encontrava-se no seu corpo!

Passara em frente à casa de muitos amigos, conhecidos, nunca havia mendigado uma dormida ou um prato de comida. Por um lado o ego dominava-o, por outro desejava conhecer-se, saber o limite da sua própria condição de ser. De modo inconsciente desafiava a própria vida de forma soberana, contudo sabia que a sua derrota estava próxima e o final aproximava-se perigosamente do extermínio da própria vida colocando um fim naqueles dias penosos. Afastou o pensamento com violência... Não, não iria ser derrotado! Lembrou a mulher que amava e sorriu com tristeza, gostaria de comunicar o seu paradeiro, dizer-lhe que a amava, mas não podia, uma força maior o separava daquele amor, crucificara a tenacidade na vontade de a reencontrar, fora longe, longe demais…

Nesse dia desistiu de caminhar, ficou penosamente sentado apenas levantando-se para beber água da bica que lhe matava a sede e escondia uma suposta fome enchendo a barriga de água. Os quatro primeiros dias haviam sido os mais penosos, depois deixara de sentir fome, sentia algo diferente, não era fome, sentia a energia residual fugir-lhe. Possuía um telefone móvel sem crédito no bolso, a bateria do celular resistira ao longo de alguns dias, quando esta perdia carga era obrigado a caminhar até uma tomada de energia pública que existia escondida na cidade. Era um terminal de energia concebido pela prefeitura do espaço onde vivia para que os espetáculos pudessem ser facilmente realizados, teria de percorrer oito quilômetros para carregar o celular, mas desistiu, estava exausto, tinha que preservar as poucas forças que lhe restavam no corpo. Precisava de mais uma refeição, tinha de sobreviver, a hora do almoço estava perto, decidiu escolher um restaurante e adotar uma técnica diferente da anterior, agora não havia noite a acobertá-lo, precisava se transformar e deste modo concebeu a sua metamorfose.

Levantou-se do banco de jardim e dirigiu-se à bica de água, lavou-se e vestiu-se como da vez anterior, mas desta vez não colocara gravata, apenas a camisa branca imaculada, deslocando-se para um pequeno restaurante na vizinhança. Não podia caminhar muito, precisava de hidratos de carbono, de uma sopa bem quente. Não poderia pedir apenas a sopa, pois senão seria alvo de suspeitas, teria também de comer um bom bife com batatas fritas e um ovo estrelado. Entrou no restaurante, escolheu deliberadamente uma mesa perto da porta, pediu o menu e rapidamente escolheu uma sopa de legumes e um bife. A sopa chegou e o restaurante foi-se enchendo com gente, pediu um sumo de laranja, e juntamente com o sumo chegou o prato principal, um generoso bife com batatas fritas… Estava calmo, a prisão dos Homens assustava Florival Flamínio, tudo o que não desejava era ser preso!

Sabia que não podia terminar o prato de comida que lhe havia sido servido, comeu três quartos do bife, outro tanto das batatas, devorou o ovo com uma carcaça de pão fresco e deixou o garfo e a faca encostados na lateral do prato como se tivesse ausentado por pouco tempo. Retirou o casaco e deixou-o pendurado nas costas da cadeira caminhando para os lavabos, retirou do bolso das calças a velha navalha de barba, rapou o crânio completamente, puxou a água do sanitário e em cinco minutos despediu-se da sua identidade anterior. Agora olhava-se no espelho colocando os óculos de sol, não era mais Florival, de imediato afastou a porta ligeiramente, olhava os proprietários assoberbados com pedidos das mesas, e de forma calma dirigiu-se ao balcão. Pediu um café à senhora que o olhou como se nunca o tivesse visto, o proprietário havia olhado na direção da mesa despreocupado, logo após ter pedido o café Florival disse bem alto:

- Momento minha senhora, deixei a carteira no carro, já volto para beber o café!

- Se desejar tiro outro café quando voltar… Assim bebe quentinho! - Respondeu a amável senhora.

- Pode ser minha Senhora, eu não demoro - Respondeu o ladrão de comida.

Ao sair do restaurante passou pela mesa onde almoçara, havia perdido o casaco que ficara nas costas da cadeira, mas saíra ileso do crime.

Caminhava calmo na direção da igreja, quando o celular no bolso tocou, um familiar desde há dias lutava para lhe alugar um quarto, telefonou-lhe a comunicar que havia conseguido um espaço num apartamento partilhado.

No final da tarde haveria uma entrevista informal com o proprietário, as chaves da casa ser-lhe-iam entregues nesse dia, chegara o fim do décimo quinto dia... Finalmente uma cama esperava-o, deitou-se, e adormeceu profundamente o sono dos justos, quando acordou haviam passado dois dias, dormira de forma incessante quarenta e oito horas. Mal acordou, tomou um café e um banho longo, a pele dos pés desfazia-se em pó, não possuía unhas, o paladar e aroma do café eram inexistentes.

Sentiu-se reconfortado com o banho, vestiu-se com roupa lavada e durante dias recuperou, no final deslocou-se aos restaurantes onde havia comido nos dias de fecho para descanso semanal deixando uma curta nota explicativa num envelope com uma quantia generosa. Deste modo, Florival Flamínio recomeçou uma nova fase da vida. Reencontrara a namorada a quem explicou o sucedido, mais tarde soube que esta havia ligado a um familiar de Florival que lhe havia contado o ocorrido explicando-lhe que este haveria de voltar, deste modo colocou um fim na curta e mal sucedia carreira de ladrão de comida.
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