quarta-feira, 10 de abril de 2013

Século XXI - O século dos iletrados



O desenvolvimento tecnológico trouxe melhoria das expectativas de vida, aumentou a capacidade de gestão de recursos e as ferramentas, mas infelizmente em termos do capital humano e do conhecimento generalista tornou-se regressivo. 

Antigamente uma mente podia abarcar todo o conhecimento, contudo deu-se uma fragmentação ao nível do conhecimento humano, as ciências dividiram o conhecimento como um todo global tonando-o impossível de caber numa única mente, o conhecimento científico disseminou-se por vários outros ramos da ciência numa construção massiva que tenderá a acabar, caso não seja reestruturado, com a robotização do indivíduo e a desumanização das sociedades no planeta.

A par desse acontecimento, a família fragmentou-se enquanto célula da sociedade, obrigando-a a caminhar progressivamente para a individualização de um crescimento humano mais rápido e menos estruturado. Os filhos são cada vez menos dependentes dos pais, aquilo que a família poderia entregar ao indivíduo como forma de compensar a ineficácia da já pobre formação escolar, agravou ainda mais a formação educacional familiar, esta tornou-se cada vez mais pobre por falta de tempo do agregado familiar enquanto célula desse todo a que apelidamos de sociedade.

Os seres humanos cada vez mais despendem o tempo de modo inútil: vendo TV, degustando a ignorância em salas de “Chat” pobres e espaços sócio culturais como o Facebook, entre outros, mais orientados para questões sexuais, fomentando encontros esporádicos e o prazer gratuito de hormonas descompensadas por um falso crescimento, afectando a inteligência emocional do ser humano desde muito cedo. O ser humano não possui um crescimento emocional equilibrado, vivemos numa sociedade doente... por essa razão penso que a prostituição é uma profissão em extinção, pois está cada vez mais disponível a um mais baixo custo...

Ao fragmentar-se o conhecimento, este deixou de ser armazenado apenas num cérebro, e começou a pulverizar-se, dando formação às pessoas em áreas muito específicas diminuindo a cultura geral. Tal facto, impede as pessoas de abrirem um livro, poderem compreendê-lo, sobretudo quando este abrange matérias diversificadas. Uma linguagem erudita ou literária tonou-se inacessível, agravando ainda mais a progressão da capacidade do intelecto dos seres humanos, desenvolvendo apenas funcionalidades estritamente executórias de uma pré-programação calculada e oportunista.

Hoje as pessoas sabem escrever o ba-bA, o suficiente para deixarem um pequeno recado num pedaço de papel,comunicarem num “chat”, usando uma linguagem pobre, cheia de símbolos criados para manifestar emoções, em vez do recurso às palavras; beijos gratuitos, abreviações da construção sintáctica! Quando se trata de construir um texto estruturado, as capacidades do indivíduo revelam-se muito pobres, para não dizer quase nulas.

Curiosamente, em vez de se incrementar a actividade curricular dos jovens nos anos que antecedem a entrada na universidade, compensando o aumento do conhecimento científico e a dificuldade do cérebro humano poder abarcá-lo com maior amplitude e desenvolvimento, diminui-se, não apenas o tempo de formação pré-universitário mas também os anos de formação superior. Hoje em dia é vulgar ver um "dê-erre/ (Dr.), a cometer erros graves na comunicação escrita. Os cursos profissionalizantes foram exterminados, todos querem ser doutores, todo o ensino profissionalizante virou ensino superior, antigamente uma empregada doméstica chamava-se de criada, depois passou a chamar-se empregada, e agora chama-se secretária, muito possivelmente no curto prazo vai chamar-se assessora doméstica e finalmente terá um doutoramento em lavagem de pratos!

A única solução para este problema está no aumento dos anos de formação antes da entrada para a universidade, passar de doze para catorze anos, dando assim tempo para que se possa introduzir em todos os currículos escolares matérias que possam ser tratadas com uma maior profundidade; a filosofia, matemática, história, e outras áreas do conhecimento. O estudo da língua Portuguesa deveria ser premiado com a leitura obrigatória dos clássicos Portugueses, Brasileiros ou de outros países de expressão Lusófona. 

Este novo tipo de analfabetismo afecta a população. Apesar da cada vez menor taxa de analfabetismo, existe uma evidência de completa incapacidade do domínio da leitura, da escrita e do cálculo. A capacidade de participação e intervenção na vida social diminuiu, trata-se aqui de um analfabetismo funcional de aprendizagem limitada, sem sedimento, insuficiente! Daí a importância dos Professores nos primeiros quatro anos de escolaridade; estes são mais importantes do que um professor universitário, médico ou general.

A literacia vai para além da mera compreensão e descodificação de um texto, inclui um conjunto de capacidades de processamento de informação que os adultos usam na resolução de tarefas associadas com o trabalho, na vida pessoal, e também nos contextos sociais (os governantes corruptos sabem disso). Por esta razão não basta ler, é necessária toda uma estruturação do crescimento humano "ab initio" para que a leitura se torne compreensível, inteligível...

É necessário e urgente que sejam introduzidos mais dois anos (no mínimo), na formação curricular obrigatória do indivíduo. A par deste aumento, é necessário que haja uma reforma profunda no sistema de ensino e nas estruturas educacionais para que os professores tenham uma cada vez maior formação e apoio. Melhorias drásticas nos salários dos professores e reconhecimento público da sua importância social. Esta importância do professor nos primeiros quatro anos de formação é o melhor investimento nas gerações que se aproximam, tornando a atracção para esta profissão maior, mas também mais exigente!

A importância de um aumento qualitativo e quantitativo visa apenas aumentar a capacidade das pessoas poderem abarcar uma cada melhor formação generalista a par da natural formação específica que o formando escolhe a determinado momento do longo percurso curricular. Sobretudo há que combater o fenómeno minimalista da compressão da linguagem que a modernidade e o positivismo trouxeram. Hoje Ignora-se a disposição das palavras nas frases, das frases no discurso, incluindo a sua relação lógica entre as múltiplas combinações possíveis para transmitir um significado completo e compreensível, a mais completa inobservância das regras de sintaxe...

Não se procura no livro o conceito que leva o período estrutural da construção sintáctica de uma frase à mente, mas antes procura-se dar uma sucessão de palavras que não precisa de ser processada no cérebro, uma imagem, obliterando completamente a capacidade criativa do autor, reduzindo a comunicação a um mundo de estímulos e sensações leves, para quê pensar? 

Miguel Martins de Menezes
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