sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Literatura, escrita e literacia



Ninguém pode escrever sem que haja plenitude, um cérebro liberto de constrangimentos e tumultos do dia-a-dia, a escrita é sobretudo um estado de consciência profundo. Tudo o mais que a rodeia são apenas elementares ferramentas utilizadas para a sua consumação num acto ou esforço de libertação.

O limite de um escritor pode ir até à loucura mais recôndita da imaginação humana; escrever sobre as deambulações amorosas de um gafanhoto arrogante. Contudo, a escrita deve ser sempre transportada das experiências que a realidade nos vai transmitindo, sobretudo com humildade, quando se escreve sem humildade destrói-se a clareza conceptual que pretendemos transmitir numa folha de papel e a mensagem torna-se inútil, pois não chega ao seu destinatário e apenas serviu para alimentar o ego do seu autor.

No decurso dos últimos anos temos assistido a um fenómeno de compressão da linguagem, a modernidade e o minimalismo tem comprimido maciçamente a linguagem destruindo-a completamente. Não é por acaso que alguns escritores fizeram uso deste recurso para se tornarem visíveis, violando as mais elementares regras da sintaxe em forma de apelo para "um novo modo de escrever" ou, como disse muitas vezes, marketing literário desonesto, criando textos sem a mínima estruturação. Umas vezes por pura ignorância das regras, outras como um modo de se mostrarem...Não é por acaso que vivemos num século de iletrados, que aplaudiu esta atitude, não os que não sabem ler, mas que não possuem consciência do objecto da leitura e da mensagem que esta passa.

Saber ler não é suficiente, é preciso compreender, saber usar a informação escrita contida nos livros, muitas vezes limitada pelo contexto familiar, social e escolar em que as pessoas vivem e crescem. Iletrado não é apenas aquele que não compreende o que lê, mas um conceito mais abrangente, pois a capacidade de inteligibilidade humana, por muito absurdo que pareça, está também ligada aos números e grande parte das pessoas não consegue fazer cálculos simples...Por essa razão, existem três grandes grupos de literacia: literacia de leitura, matemática e ciências (a sintaxe é uma das ciências mais antigas).

Este novo tipo de analfabetismo afecta a população que, apesar do aumento das taxas e dos anos de escolaridade, evidencia completa incapacidade do domínio da leitura, da escrita e do cálculo, vendo por isso, diminuída a capacidade de participação e intervenção na vida social. Trata-se de um analfabetismo funcional de aprendizagem limitada, mal sedimentada, insuficiente! Daí a importância dos Professores nos primeiros quatro anos de escolaridade; estes são mais importantes do que um professor universitário, um médico ou um general.

A literacia vai para além da mera compreensão e descodificação de um texto, é também a inclusão de um conjunto de capacidades de processamento de informação que os adultos usam na resolução de tarefas associadas com o trabalho, na vida pessoal e também nos contextos sociais (os governantes corruptos sabem disso). Por esta razão não basta ler, é necessária toda uma estruturação do crescimento humano "ab initio" para que a leitura se torne compreensível.

Um bom escritor precisa dominar um vocabulário extenso para atingir a sonoridade pretendida (muitas vezes duas palavras com o mesmo significado atribuem uma beleza sonora diversificada no contexto onde estão inseridas). Um bom dicionário ajuda, mas estes não transmitem a eloquência sonora na construção sintática de um agregado de palavras, apenas o significado de cada palavra isolada.

Hábitos de leitura consistente permitem uma rápida inserção da sonoridade da palavra no acto imediato da concepção estrutural do período. O dicionário ajuda, mas também delimita o escritor, o seu recurso deveria ser apenas funcional e não a fonte onde a escolha da palavra é determinada. Existe uma enorme diferença entre a palavra "escritor" (aquele que escreve) e o "ser escritor" ( aquele que projecta o Ser na escrita) são duas palavras, não basta saber escrever, dominar a sintaxe, gramática e prontuários ortográficos da língua.

"Ser Escritor" é também e sobretudo um estado de consciência; como Ernest Hemingway dizia: "Ninguém pode escrever sobre aquilo que nunca viveu", nem mesmo ficção (o acréscimo é da minha autoria), nem com cursos de escrita criativa, universidades ou outros recursos hoje utilizados como a chamada "parceria" na escrita...
Hoje Ignora-se a disposição das palavras nas frases, das frases no discurso, incluindo a sua relação lógica entre as múltiplas combinações possíveis para transmitir um significado completo e compreensível, a mais completa inobservância das regras de sintaxe A capacidade criativa do escritor fica reduzida, a sua visão pessoal de uma paisagem obliterada por uma exposição que induza a que as cores e os traços sejam exteriores ao processo criativo.

Não se procura no livro o conceito que leva o período estrutural da construção sintáctica de uma frase à mente, mas antes se procura dar uma sucessão de palavras que não precisa de ser processada no cérebro, uma imagem, obliterando completamente a capacidade criativa do autor, reduzindo a comunicação a um mundo de estímulos e sensações leves, para quê pensar? 

Recordo ter escrito cartas de amor pungentes que se estendiam por várias páginas, nunca saciado pelas palavras que dizia. Cartas de amor "ridículas", como Pessoa dizia, mas cuja beleza transcendia o riso dos que são alheios a este sentimento belo, o mais belo que o ser humano possui!

Quando recordo essas cartas, não tenho dúvida em afirmar que elas tinham origem nesse delicado sentimento; um fogo que lambia cada página e cada palavra, repetindo incessantemente a ideia de fundo plasmada em múltiplas palavras de afeição e ternura cujo objecto era a conquista do destinatário. Esse género epistolar íntimo com origem na nossa essência, no nosso fervor deambulatório, uma viagem entre a erudição e o exorcismo da paixão que alimentava um pedaço de papel.

Na verdade penso que existe uma inter-relação entre as limitações da nossa capacidade de expressão e a beleza que pretendemos transmitir, nunca saciados pelas palavras, então para quê limita-las como pretendem os minimalistas? Destruir a nossa essência, o nosso fervor deambulatório de uma viagem que de forma tão limitada (apesar de todos os recursos disponíveis), elabora o percurso entre a erudição e o exorcismo da paixão que alimentamos num pedaço de papel.

O minimalismo não iria reduzir ainda mais a criatividade desse acto de entrega que se pretende absoluto sem nunca o ser pela nossa precariedade humana? As já limitadas ferramentas de que dispomos para atingir a finalidade a que nos propomos? Ai, ai, ai... Esse sentimento belo desnutrido pela incapacidade de tecer a imaginação na moldura das nossas palavras e construções mentais.

Para combater essa visão minimalista na comunicação há que recordar aqui que os primeiros seres humanos eram na verdade os seus maiores e mais leais adeptos, pois a linguagem (já não falo na escrita) era apenas uma sucessão de grunhidos que eram canalizados através da função esfincteriana esófagica que mais não era do que um órgão originariamente destinado a suportar o processo de deglutição alimentar. Infelizmente, vejo que o panorama da literatura está a sofrer esta pressão de uma sociedade pouco virada para a cultura e mais ligada ao consumo de "hamburgers" e de "chiclete para os olhos" (TV). Este condicionamento da comunicação escrita e da linguagem é regressivo e tão primário que nos levaria e exprimir amor e afecto como o faziam os nossos mais ancestrais antepassados; Huuug, huuuu, huuuuuuug...

O que pensa disto? Quando escrevemos num acto de paixão e amor, temos a tendência de ir ao extremo na plenitude do uso das ferramentas disponíveis para exprimirmos da forma mais perfeita, mais imaculada que encontramos, esse belo sentimento que modifica a alma humana e a que de modo tão simples chamamos: AMOR!

A escrita é sobretudo uma criação do ser que utiliza uma ferramenta projectada pela ciência e destinada a dar fixidez à palavra falada conservando-a no tempo. Escritor é o ser que domina o uso desta ferramenta com estado de consciência da sua existência enquanto entidade que percepciona a realidade que o rodeia.

Ser escritor é sobretudo um estado de consciência que profana a realidade com uma intencionalidade destinada a abrir luz sobre o ser.

Abraços amigos, 

Miguel Martins de Menezes
(Adaptado de textos do autor)

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