quinta-feira, 25 de outubro de 2012

"O tempo dos Homens"





Abhay estava deslumbrado, mais tarde falaria ao seu discípulo que a energia sexual era a principal fonte do potencial espiritual, o fogo da paixão, os ascetas deveriam controlar e sublimar a sua luxúria, para não destruir o poder espiritual, sob pena deste tornar-se inexistente devido à perda energética do calor interno do corpo expelido durante o ato sexual, a maior fonte de energia espiritual.

O controlo absoluto do momento de entrega dependia de vários factores; a alimentação era rigorosamente determinada, controlada e adequada, certos alimentos anti-afrodisíacos não deviam ser tocados, poderiam levar vinte dias a atingir o clímax orgástico, protelando-o diariamente em cada momento até que o venerado dia chegava! É então que o maior prazer é atingido, a mulher venerada como uma Deusa, o encontro físico destinava-se a proporcionar-lhe tudo como se ela fosse sagrada. Nesse momento todas as energias são libertadas dos corpos até à completa exaustão, o mais completo estado de prostração, a plenitude absoluta…

Abhay recordou-se de Janalih, a memória permanente da mulher vinha ao seu encontro mais viva. Naquele preciso momento recordou o último confronto com a sua noiva, deixando de escutar o seu mestre. A sua mente viajou para longe, lembrando o modo como rolavam em cima da areia fina, sentindo a frescura da água dos seus lábios aveludados perfumados pelo néctar da vida que havia recebido tépido vindo do interior do corpo e das mucosas. Um cheiro adocicado ainda permanecia dentro das narinas, da boca e do cérebro, a sua pele ainda se fazia sentir nos dedos. Jamais esqueceria a ternura dos momentos de mãos dadas e a fragrância única da mulher a quem dedicou a sua vida. Ainda exalava o bálsamo do seu abraço, não havia distância que matasse esse sentimento divino que aproxima as pessoas. Era a sua noiva, a Deusa da sua adoração. 

Babu reparou que Abhay não o escutava mais, bastava o olhar perdido na distância do seu horizonte para o perceber, os sentidos ausentes do jovem revelavam-lhe onde este se encontrava, traiam-no… Sorriu interiormente sentindo-se culpado daquele silêncio repentino, intimamente perdoava-lhe esse voo mental para o coração da sua amada. Subitamente Abhay perguntou-lhe:

– Mestre, como pode aceitar-me como teu discípulo se eu vou casar?

– Uma vez perguntaste-me se eu era um Sadhu e eu respondi-te que não - Afirmou com serenidade -. Na verdade não o sou embora as pessoas me olhem como tal. Apenas tento transmitir-te conhecimentos sem a pretensão de que fiques eternamente do meu lado. 

– Como não és um Sadhu?

– Não, não sou um Sadhu digo-te pela terceira vez - O velho sábio olhou Abhay nos olhos com seriedade - Sou o que nunca dorme, não possuo nenhuma religião, não sigo nenhum Deus, não tenho nenhuma seita ou grupo, dedico a minha vida a tudo o que me rodeia, em breve saberás quem sou, o verdadeiro templo de Deus está dentro de nós...

– Desculpe mestre, mas se não é um Sadhu por que razão leva-me ao Khumba Mela*?

– O mais importante no Khumba Mela é a consciência da vida e da existência, por essa razão decidi partilhar esse momento contigo, contudo desejo dizer-te que deves olhar tudo atentamente e em silêncio, tentar abranger o seu alcance, mais do que intervir, ainda que possas e devas participar de tudo o que te rodeia.

– Quando Babu? Quando vou saber tudo isso?

– És persistente como o vento de uma tempestade, emotivo como o fogo que lambe a madeira, curioso como as águas que batem nas rochas porosas do oceano penetrando cada buraco ou fresta de modo inquisitivo. Tem paciência, breve significa que o tempo urge, não demora, o momento aproxima-se como os segundos que ocorrem entre a luz de um raio e o rombo sonoro de um trovão. Babu silenciou-se olhando Abhay nos olhos com um rosto muito sério.

– Ai Babu! – Abhay mostrava um rosto crispado – Provocas medo dentro de mim!

– Nunca sintas medo de nada na vida, apenas podes sentir medo de uma só coisa… 

– O quê Sadhu?

– De ti próprio… és o teu pior inimigo, és tu quem projecta emoções e liberta ou aprisiona a tua fonte de energia, os teus voos, as tuas capacidades e desejos, o calor e o apego a cada coisa na tua vida. – Entendo mestre. Sou eu quem comanda tudo?

– Sim. Tu és o leme do teu barco e o destino também, tu és os passos e o caminho, se acreditares no que fazes atingirás sempre os objectivos a que te propões, a tua fortuna, o teu rumo. A única coisa que ignoras é o tempo, pois este é uma consequência do modo como ages, o tempo não existe, apenas foi concebido para domínio dos humanos.

– Como assim?

– O tempo não para, é imutável, perene, não o vês, não o sentes, não o escutas, não o podes tocar, mas os teus atos determinam o teu tempo. Se deres um passo em frente no momento que um carro se aproxima morres… A rua está na tua frente e continuará a estar depois do carro passar. Não tenhas pressa, faz o mesmo com a tua vida, não a apresses, luta por tudo o que sonhas, nunca desistas de sonhar, mesmo que os sonhos estejam distantes, mesmo que os outros não acreditem neles, pois cada pequeno passo que dás te aproxima deles, isso é o tempo… 

– Porque se não caminhar em direcção aos meus sonhos, nunca vou conseguir?

– Exactamente, percebeste… esse é o tempo, não importa se levas trinta minutos ou uma hora, o que importa é chegar.

– Nunca tinha pensado nesse lado das coisas mestre…

– Não. Eu sei… O mais importante na vida não é a pressa com que consegues atingir objectivos, mas sim a firmeza da vontade. Não existe génio que não seja superado pelo trabalho e pela vontade, o ser humano é dotado de capacidades que desconhece e não utiliza, a sua beleza é inigualável. 

A madrugada surgia com a sua luz etérea, Abhay já havia observado esse fenómeno que lhe fazia lembrar a morte. Os contornos esbatidos das árvores, a neblina húmida cobrindo tudo como uma mortalha porosa. Uma visão fantasma da realidade que o dia trazia após o nascer dos primeiros raios de luz solar aquecerem o corpo, desfazendo esse manto que disfarça os perfis no momento em que as trevas abraçam a luz da vida.

Nota do autor: Khumba Mela* - Festival de homens santos realizado na Índia de 12 em 12 anos. Consiste numa peregrinação de todo o planeta cuja última manifestação reuniu 60 milhões de pessoas em Haridwar, no sopé dos Himalaias. O festival é organizado pelo governo indiano que para o efeito constrói uma autêntica cidade de tendas.


Extracto de "O Templo dos Homens"
Miguel Martins de Menezes 
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